terça-feira, 25 de março de 2014

                   
  
    Acordou e percebeu que conhecia de mais o homem com quem dormia. É estranho, porque a maioria das pessoas procuram isso a vida toda: Conhecer realmente o seu parceiro. Ela conhecia, ah se conhecia...cada mania, defeito, qualidade...tudo. É difícil conviver com uma pessoa que você consegue prever cada movimento, foi isso que ela pensou. Nada que ele fizesse a surpreenderia mais, todas as conversar já tinham sido conversadas, todos os segredos revelados , até mesmo aquela infidelidade de 25 anos atrás com a prima da meia irmã dela, foi difícil, mas ela perdoou, a final, ela não tinha sido nenhuma santa. 

-Acorda Bernardo! Nos precisamos conversar. 

   Em vão, ele nem se mexeu, ele la queria conversar...La vem ela querer saber se eu tomei os meus remédios da pressão, pensou ele em silêncio. Ela deitou novamente. 
Vai ver nem é tão ruim assim conhecer cada detalhe da pessoa com que você dorme, com a qual você divide sua vida, com a qual você faz sexo pelo menos uma vez por mês - e não era la essas coisas- Pensou ela.  Oras, era terrível! 

-Acorda Bernardo! Eu quero me divorciar!
-Você tomou os seus antidepressivos?

   La vem ele querer saber se eu tomei os meus remédios, quer dizer, não é depressão, é frustração.

-Não tem nada em você que eu não saiba, tudo bem que eu já tenho quase 60 anos, mas eu acho que seria uma boa a gente se divorciar, sabe? Cada um curtir o dinheiro da sua aposentadoria e sair por ai. Sabe aquela viajem para Gramado? Poxa você nunca me levou la, eu quero ir pra Gramado! E você ? Você pode por fim ir naqueles lugares onde tem mulheres que cobram por sexo, sabe? Qual é mesmo o nome?
-Zona?
-Isso, zona...Você me entende? A gente até podia combinar de quando chegar la pelos 70 anos, voltamos, cheios de histórias novas, a conversa não ia acabar nunca...
-Olha só Celeste, a gente ainda tem muita coisa pra conversar...
-Bernardo você não entende, todas as nossas conversas são repetidas. Uma ou outra vez que alguém morre, ou alguém nos visita e talvez conversamos coisas novas, isso se a gente der sorte...
-Se eu te dizer uma coisa que você não sabe ao meu respeito você me deixa voltar a dormir?
-Eu duvido
-Olha só, eu vou na zona pelo menos uma vez na semana. E digo mais, eu não comi só a prima da sua meia irmã, eu também transei com tua meia irmã. 

   Ele se virou e voltou a dormir, ou voltou a fingir que dormia. Ela também se deitou de novo, mal podia esperar pelo dia seguinte. A conversa iria render (Freud explica).

segunda-feira, 24 de março de 2014

 

Buscar uma criança na escola, e voltar caminhando pode ser algo muito divertido para a criança. Pra mim, uma experiência bem interessante.


Sai da escola, avista um canteiro de flores
- Vem Teti (no caso eu), deixa eu pegar uma flor!
Vai até o canteiro 
-Pega a flor (branca). Pega Teti, é pra você!
Andamos (não mais de três passos)
-Teti, eu esqueci de pegar a minha flor!
Volta, pega mais uma flor (dessa vez rosa).
Andamos.
Um cachorro psicopata começa a latir desesperadamente.
Se assusta, me abraça, mas logo ri da cara de psicopata do cachorro e fica por uns 3 minutos indo e voltando só para o cachorro latir mais forte.
Andamos, mais um canteiro de flores
-Olha a flor Teti, deixa eu pegar. É rosa Teti (e era mesmo). Pega Teti, é pra você !
Andamos, uma árvore
-Que cor é essa árvore?
-Verde? E essa? E essa, também é verde?
Pega algumas folhas da árvore (pra não esquecer que são verdes)
Andamos.
Pisa na grama
-Olha Teti, essa árvore verde é pequenininha. Ela vai crescer e ficar grande como eu? Como você? Como a outra árvore verde?
Explica o processo
-E as flores que a gente pegou? Também vão crescer? Vamos chegar em casa e colocar ela no chão, pra ver elas crescer.
Andamos
Mais uma árvore, dessa vez com flores amarelas
-Pega pra mim Teti, a árvore é grande
Pega uma flor (pra ela)...Pega mais uma (pra mim).
Andamos
Mais uma árvore, dessa vez do tamanho dela.
-Olha Teti, uma árvore bebê!!
Abraça a arvore, abraça a outra arvore do lado dela.
Andamos
Mais um canteiro de flores (eu espero que seja o último)
-Olha Teti, mais uma flor, deixa eu pegar? Pega Teti, é pra você.
Andamos
Chega em casa
-Vem Teti, vamos colocar a flor no chão pra ver ela crescer...
-Flor não cresce desse jeito Talissa, que tal um carocinho de feijão?

sábado, 22 de março de 2014





     Deve ser triste chegar nos 60 anos sem nenhuma boa história pra contar, ou pelo menos fazer questão de não se lembrar delas. 
     Minha avó é a pessoa mais triste que conheço ( mais pessimista e negativa também ). Tem cara de que só fez escolhas erradas a vida inteira. Nascer foi a primeira delas (embora essa não tenha sido escolha dela ); repete isso todos os dias. Mesmo tendo uma boa vida, ela insiste em fazer com que todo mundo saiba que teve um passado hostil. 


     Ela era pobre, se apaixonou por um cara casado, teve um filho com ele...O cara lhe propôs ser sua amante oficial, ela o deixou. Casou-se, pela primeira vez, teve uma filha, doente.  Morou 8 anos dentro de um hospital, nesses 8 anos o marido também a abandonou (perdeu-se no mundo ou morreu, não sei, porque ela nunca me contou isso, fico sabendo das coisas por acaso) Casou-se de novo, com o meu avô, a pessoa mais gente boa que conheço. Assumiu os seus dois filhos ( o mais velho preferiu morar com a avó ); a levou pra morar na cidade, lhe deu uma casa e tudo que uma casa precisa ter.  Engravidou novamente, mesmo contra a vontade dela, sabe ela e Deus, o tanto de vezes que ela tentou se desfazer da criança. Não a julgo. 
     Eu não sei nada da vida, além do fato de que tenho muito que aprender na vida. Mas uma das poucas coisas que aprendi, sabe-se lá onde, é que escolhas erradas estão ai para serem escolhidas, e que o passado já passou (a segunda acabou de me ocorrer). Acho estranho o fato dela ainda chorar toda vez que fala no homem que não quis largar a mulher pra ficar com ela, eu não sei se é choro de arrependimento ou de raiva ou de tristeza mesmo...Acho que os três.

   Não sei em que momento ela se tornou a pessoa que é hoje. Minha mãe me conta que foi no momento em que se apaixonou pelo cara casado, mas eu acho que foi no momento em que seu orgulho falou mais alto e ela decidiu não ficar com ele porque era casado. Oras, veja lá se isso é motivo pra não ser feliz. Ela teria sido uma amante cheia de histórias. Embora se assim fosse eu não estaria aqui para ouvi-las...Mas seriam ótimas histórias.